A vontade foi demais  Sidney Amaral
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Abertura

04 de setembro, 2018. horário 19:00

Período Expositivo

05 de setembro, 2018 a 27 de outubro, 2018

A primeira individual póstuma da obra do artista recentemente falecido não tem pretensão retrospectiva, embora, dessa produção sejam exibidos resultados de fases pretéritas e atuais, parte considerável dessa produção nunca foi exibida antes. São pinturas, desenhos e esculturas loquazes no depoimento sobre o nível de apuro técnico alcançado pelo artista nesses estágios do seu trabalho. Essas obras dão notícia sobre a maturidade do artista e sobre as preocupações que paulatinamente subsidiaram suas pesquisas. Será difícil não notar que o caráter de seus inúmeros auto-retratos vai migrando de um discurso auto-centrado obrigatoriamente subjetivo para paulatinamente ceder lugar a um certo etos coletivo, sendo isto também uma conseqüência da sua vibrante tomada de posição diante da cena social e política da nação, contribui para isso também sua posição protagonista na cena artística afro brasileira. Prova disso é que paralelamente a exposição realizada na Galeria Pilar, outras duas coletivas, promovidas por instituições da importância do MASP e SESC levam ao público trabalhos realizados por Sidney Amaral. Esta subjetividade se explicita, cremos, nas obras em que o artista assume isolar suas figuras em fundos pretos, sinalizando, quem sabe, uma solidão fundamental e inescapável ao ser humano numa chave existencialista. Nessas pinturas, em geral realizadas com tinta acrílica, Sidney representa a si mesmo em situações enigmáticas que apelam a nossa imaginação e nos tornam cúmplices dessas narrativas de sabor francamente surrealista, traço que marca influências confessas do artista. Fulminado pela doença que desgraçadamente o tirou do nosso convívio, algumas das obras expostas não puderem ser acabadas. A curadoria e a galeria assumiram o compromisso de exibi-las, entendendo que elas são vitais á compreensão do seu processo de trabalho e, mais que isso, agora são testemunhos do esforço empreendido pela família e galeria no sentido de preservar esse legado inestimável. Esses trabalhos não são estudos, são obras interrompidas onde o fundamental esta colocado, isto é, a idéia que os estruturam esta perfeitamente sedimentada e o gesto suspenso acrescenta a elas uma imanente carga de dramaticidade. No pequeno conjunto de esculturas exposto, a sedução do bronze tratado é quase que uma armadilha que nos conduz a uma estética que sugere que a dor será inevitável a qualquer percurso dos afetos. Uma dessas peças porem escapa das soluções normalmente empregadas pelo artista, trata-se de uma frigideira que recebeu no seu bojo a figura da constelação símbolo da nacionalidade brasileira: o Cruzeiro do Sul. Aí a sutileza dá lugar à atitude punk diante de uma situação contra a qual o artista se levanta – só a raiva nos salva. Essa exposição, como outras que temos certeza de que virão, é uma oportunidade para organizar e coligir a obra do artista que dependerá de todos os cuidados que a família e os interessados possam a ela dispensar, mas ela também é uma oportunidade para refletir sobre a urgente necessidade de expandir a rede de relações que torna possível a manutenção de acervos que como esse precisam ser exibidos, estudados, documentados, e porque não, adquiridos por quem os aprecie e deseje contribuir para sua perenização?

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